Quem sou eu

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Amante das palavras e daqueles que sabem fazer bom uso delas. Gosto de quem entende o que eu digo. De quem escuta o que eu penso. Dos meus discos. Dos meus livros. Da minha solidãozinha. Dos meus blues. De homem que sabe ser homem. De noites em claro e dias em branco. (...) Eu canto em português errado. Acho que o imperfeito não participa do passado. Troco as pessoas, troco os pronomes. Preciso de oxigênio, preciso ter amigos, preciso ter dinheiro, preciso de carinho. Acho que te amava, agora acho que te odeio. São tudo pequenas coisas e tudo deve passar.

domingo, 6 de março de 2011

Adorável Psicose.

Estava eu na praia, particularmente irritada por causa das nuvens de chuva que resolveram estacionar justo em cima do sol. Estava sozinha - se bem que, munida de um livro e de um mp3 player, ninguém está sozinha.
Pouco antes de virar a primeira página, reparei no cara bonitinho que me olhava a uma distância não exatamente grande. Ele também estava com seu livro e seu mp3 player, o que tornava a situação ao mesmo tempo engraçadinha e constrangedora.
Decidi voltar à leitura, quando uma abelha alcoólatra viciada em protetor solar veio dar uma de bully pra cima de mim. O resultado foi uma cena ridícula, uma espécie de dança do robô misturada com Matrix que, por alguma razão, foi atraente o bastante para fazer o cara vir ao meu socorro.
"Qual é o seu nome?", ele perguntou, logo depois de espantar a abelha.
Comecei a pensar em uma série de nomes plausíveis para dizer no lugar do meu verdadeiro. Não sei exatamente por que, mas me pareceu a coisa certa a se fazer.
"S-Soraia", respondi.
"Sério? Você demorou pelo menos uns dez segundos pra dizer Soraia e ainda gaguejou na hora."
"Não. Não gaguejei não. Esse é meu nome."
"S-Soraia?"
"Sim", insisti, enquanto ele sorria de um jeito que eu não sabia se me irritava ou se me atraía.
"Então soletra."
Revirei os olhos em sinal de protesto.
"S-O-S-S-O-R-A-I-A", soletrei.
"Sossoraia?", perguntou, confirmando. "É prático porque quando alguém pergunta quem é você, é só responder: Sô-Soraia."
Ok, eu teria rido nessa hora. Mas me segurei, só de implicância.
"Bom, pelo visto o sol não vai sair mais hoje, então eu vou indo", eu disse, juntando minhas coisas.
"Você não quer me dar seu telefone?"
"Não."
"Não?", perguntou, surpreso com a minha franqueza.
"Não." "Por quê, você tem namorado?"
Nessa hora eu tive uma espécie de síncope e não me recordo muito bem o que disse. Mas deve ter sido algo parecido com:
"Se eu tenho... Ha, essa é boa", comecei. "Deixa eu te falar como é que vai ser. Primeiro você vai me chamar pra sair, vai dizer que gosta de mim e depois que gosta muito de mim. E aí eu vou gostar de você. E depois gostar muito de você. E é nessa hora em que tudo vai começar a ficar confuso e difícil e frustrante e eu não vou ter outra escolha senão ir embora. E quando eu for, você vai fechar os olhos por dois segundos e ao abrir será como se eu nunca tivesse existido. Pra você. Porque eu vou continuar pensando nisso até aparecer outro cara bonitinho e irritante que vai perguntar meu nome e me chamar pra sair. E é por isso que não eu não vou te dar meu telefone", encerrei, recuperando o fôlego.
"Uau", ele soltou. "Você podia só ter dito que tinha namorado. Sério, eu teria aceitado essa resposta."
"Lamento, não tenho."
"Você é o quê, vidente?"
"Quase. Sou roteirista."
"Então você já elaborou o roteiro todo, já sabe tudo o que vai acontecer", constatou, enquanto eu fazia que sim. "Nesse caso, o que vai acontecer comigo depois que você for embora?"
"Você vai sair por aí pegando garotas bem menos interessantes, até que uma delas, provavelmente meio fanha e gorda, chamada Deise, vai ficar grávida e vocês vão acabar se casando. Mas você vai trair a Deise com a Cibele, que também vai ficar grávida e aí você vai passar o resto da vida trabalhando para pagar pensão pras duas, até um dia descobrir que os filhos nem eram seus."
"Caralho. Minha vida vai ficar uma merda depois que você for embora."
"Pois é."
"Então é melhor não deixar você ir nunca."
E, com essa, os dois ficaram em silêncio.
"Me dá seu telefone."
Olhei para ele e pensei, que se dane.
"Anota aí."
"Pensando bem, é melhor não", reconsiderou. "Vai que eu sou um psicopata."
"Que tipo de psicopata avisa que é um psicopata?"
"Sei lá, o tipo sincero."
Dessa vez eu ri.
E quando eu menos esperava, as nuvens de chuva estavam a ponto de sair da frente do sol. Talvez, no fim das contas, aquele domingo nublado ainda fosse dar praia.